
Diplomacia, do diretor Volker Schlöndorff, ilustra bem como é importante a condução cuidadosa da política externa de um país. O filme se desenvolve na Paris ocupada, acima das arcadas da Rue de Rivoli, no Hotel Meurice. Lá, ocorrem os diálogos entre o general alemão Dietrich Von Choltitz e o diplomata sueco Raoul Nordling, num esforço para o chefe da ocupação nazista não obedecer à ordem de destruir a capital francesa antes da retirada alemã em 1944. É possível que os fatos tenham sido romanceados, mas as construções parisienses existentes na época continuam de pé, ao contrário do que aconteceu em tantas outras cidades europeias ao longo da Segunda Grande Guerra.
Em 1961, os Estados Unidos tentaram invadir Cuba pela Baía dos Porcos. Não conseguiram. Um ano depois, veio a reação, no episódio conhecido como Crise dos Mísseis – um embate entre os presidentes J. F. Kennedy e Nikita Kruchev. Pelo que li, os americanos do Norte já tinham instalado seus brinquedos nucleares em território turco e movimentavam “bem” as suas peças de guerra. Por outro lado, os soviéticos, que conheciam muito bem o jogo, ensaiaram a transformação de Cuba num porta-aviões poderosíssimo a poucas braçadas de Miami. Xeque! A diplomacia, no entanto, cuidou que não fosse um xeque-mate. Os mísseis não foram instalados em território cubano, os da Turquia, retirados, e os dois presidentes inauguraram uma nova arma: o telefone vermelho.
Mas os instrumentos da diplomacia são bem diferentes na República Deprimente do Brasil de Bolsonaro & Sons. Através das redes digitais, a seriedade do diálogo deu lugar a piadas, ofensas e improvisos e, em pouco tempo, Jair pariu o pária. Ofendeu a primeira dama da França, desdenhou da importância do BRICS – bloco econômico formado com Rússia, Índia, China e África do Sul – e se negou a participar da aliança mundial de vacinas contra a Covid-19, a Covax, que projetava o fornecimento de 200 milhões de doses para o Brasil.
No plano interno, o estilo não foi diferente. Em outubro de 2020, ao vivo, o atual presidente desautorizou seu ministro da Saúde, após o anúncio da compra de 46 milhões de doses da vacina do Instituto Butantan. Manda quem pode e permanece no cargo quem teria destruído Paris sem pestanejar. A propósito, foi patética a cerimônia de chegada de uma fração irrisória de doses da vacina contra a Covid. Jatos de água reproduziram um arco do triunfo para a passagem do avião com uma carga que caberia num teco-teco. Portanto, diante de tantos desastres diplomáticos e domésticos, talvez apenas um meteoro seja capaz de abreviar a sucessão de gafes e tragédias projetáveis para o Brasil até o fim de 2022 – não a belíssima escultura de Bruno Giorgio no espelho d’água do Palácio do Itamaraty.