
Ao contrário do que o simbólico final de ano deveria me inspirar, a recapitular os fatídicos últimos 365 dias e projetar tempos melhores, retrocedo à virada da década de 1980 para a de 1990. Não estou pensando apenas na queda do muro de Berlim, mas na derrocada de alguns preconceitos enraizados pela minha formação. Trato de um deles.
Recém casado, jovem, com boa saúde, perdi o emprego que garantia o pagamento do aluguel e mantinha o padrão dos nascidos e crescidos como eu, na classe média. De um dia para o outro, troquei as funções num escritório pelo chão da fábrica. E graças à bondade de um saudoso amigo.
Passei a trabalhar numa oficina mecânica na Lapa. Sim, daquelas mais escuras, com cheiro de gasolina, muita graxa e, pior, onde a minha ignorância em automóveis destoava. Meus três companheiros eram ases do ofício e eu não fazia a menor idéia de como se dava a explosão dos motores sem levar tudo e todos para os ares.
Mas eu sabia varrer, limpar e tinha um TOC interpretado como um dom para a organização das coisas. Fui útil, sobrevivi e aprendi muito – o que rendeu mais alguns anos no mundo das oficinas, apesar de que nunca gostei muito de carros. Além do Aston Martin do 007, só os de miniatura.
O tempo passou um pouco e alguns sabem que eu mantinha uma “vida dupla”. De dia era mecânico e de noite era professor da Aliança Francesa. E como colocar isso num currículo vitae sem provocar cólicas nos profissionais de recursos humanos? Estive com alguns chasseurs de têtes (“é o cacete”, diria o colunista sobre a expressão em francês) que não sabiam o que me dizer. Davam meu caso como perdido. “Quem sabe o senhor poderá ter outro emprego numa próxima encarnação, Sr. Mauro?”
Nem sempre foi fácil, mas há tanto a dizer… Conto essa sempre. No final de um dia de trabalho na oficina, todo sujo de graxa, entreguei o carro de uma cliente e saí correndo para tomar um “banho de gasolina”, limpar as mãos com pasta rosa e mudar de roupa para dar aula.
Uma hora depois, ao subir as escadas da Aliança Francesa de Botafogo, a tal cliente que me vira em outros trajes e cenário, estarrecida, perguntou: “que bacana, você estuda francês?”. Na época, minha juventude e imaturidade não deixaram os múltiplos orgasmos escaparem. “Não, senhora. Dou aulas aqui. Au revoir!”
Hoje, certamente, a resposta seria outra. A moça só reagiu como eu próprio teria feito, fossem os papéis invertidos. O muro de Berlim ainda não tinha vindo todo abaixo… E há tantos intactos… Contemos as nossas histórias e tenhamos, sempre, dias melhores, com menos preconceitos.