
Hoje, ao ler o jornal pela manhã, notei que não faço a menor ideia de quais são os produtos anunciados em invejáveis páginas inteiras. Maquinalmente, passo adiante na certeza de que nada que está ali me interessa ou me é acessível. Minto! Sei que algumas trazem as ofertas do supermercado Guanabara, onde não me atrevo a pisar, considerando o quanto gasta em propaganda. Portanto, fosse eu um grande anunciante, uniria o útil ao desejável, optaria por menos linhas e menos colunas no velho, inescapável e imortal obituário.
Com certeza, as gigantes chinesas do ramo automobilístico fariam melhor se patrocinassem os registros necrológicos da cidade. Nem sempre tamanho é documento e, entre a comunicação de um falecimento e outro, os produtos atrairiam mais olhares e muito mais atenção. Carros velozes com todo conforto que o consumidor exigente requer fariam sensação. Idem para chesteres, presuntos e pernis anunciados por grandes frigoríficos, assim como para bancos e, em tempo de eleições, para candidatos que desejam nos governar. Nos pequenos frascos, lembremo-nos, estão os venenos mais eficazes.
Resolvida a questão dos anunciantes, garantida a sobrevivência dos veículos de imprensa, haveria muito mais espaço para o “jornalismo raiz”. Não aquele que separa o joio do trigo para publicar o joio, como me ensinou o grande jornalista Murilo Rocha, reproduzindo frase de Adlai Stevenson, candidato derrotado por Dwight Eisenhower nas eleições americanas de 1952 e 1956. Publicar-se-ia o trigo! Páginas e mais páginas a revelar aos brasileiros a grandeza do Brasil, este gigante que a mídia golpista insiste estar adormecido.
Não! Vivemos num paraíso tropical. Aqui, em se plantando tudo dá. Trigo, não tanto, requer clima frio, mas somos o maior produtor de café! Alguém já se deu conta de que somos os protagonistas do desjejum do planeta?! Do breakfast, do pequeno almoço, do desayuno, do petit déjeuner! Passamos os Estados Unidos na produção da soja e aniquilaríamos a Bélgica e a Suíça se deixássemos de exportar o cacau baiano para suas fábricas de chocolate. Produzimos 480 mil toneladas de minério de ferro por ano e essa história de que o Nilo é maior do que o nosso Amazonas é uma enorme falácia, como bem disse o Major Quaresma do grande Lima Barreto…
Nossos jornais, portanto, terão a oportunidade única de refletir a grandeza do Brasil. Chega de falar desse viruzinho da China! Éramos 90 milhões em ação em 1970, já somos mais de 200 milhões hoje e 14 milhões sequer trabalham! E o nosso PIB? É um pibão! Chega de valorizar a cultura estrangeira! Não temos o David de Michelangelo, de pé na Piazza della Signoria, em Florença, mas temos o maior orelhão do mundo! Logo ali, em Itu, no interior de São Paulo. Aliás, o tal David… Bem… Quem o viu sabe que sequer é bem dotado… Para frente e para cima Brasil!