O veterinário-chefe da presidência de uma república fictícia – cargo ocupado por um general de quatro estrelas – deveria agir imediatamente para salvar as emas da residência oficial do chefe do governo. As aves andam murchas, com o humor oscilante, tendendo a uma depressão profunda. Um jornalista que cobre as movimentações no palácio disse-me que outro dia uma delas se aproximou do cercadinho onde ficam empoleirados os partisans do presidente e se descontrolou. A ave, desesperada, implorou que seus compatriotas reagissem e pusessem fim a tanto terror.

E não parou por aí. Com a autoridade de quem vive no centro do poder, disse que a República transformou-se num teatro pulguento com uma programação sortida de tragédias que ofuscam quaisquer comédias. O bom humor e o riso que rejuvenescem tornaram-se quase impossíveis, tamanhas são as manifestações de negação, burrice e indiferença de uma administração que conduz esse país fictício ao abismo.

A ema, sobre cujo nome se impõe segredo, confessou que por pouco não deu uma bicada no atual ministro da saúde, inconformada que está com a sua inércia frente a uma pandemia que matou mais de um milhão e meio de pessoas no mundo. Segundo ela, o ministro, que nos fins de semana limpa a piscina do palácio, não se dá ao respeito. Sua expertise em logística se limita a equilibrar-se no cargo. E o tal do ministro do meio ambiente? Ele a apavora. Quando a ema não consegue evitá-lo no gramado, percebe seus olhos cheios de malícia fixados na sua penugem, quem sabe, para ornar seus hotéis-boutique.

Enfim, são tragédias sucessivas que condenam as emas a viverem a duras penas, sob uma tensão insuportável. Nem mesmo o esquete de comédia da exposição das roupas do casal que mora ali conseguiu arrancar gargalhadas do público. Nenhuma ema achou graça. Acharam ridículo, cafona, de mau gosto e gemeram. E, para quem não sabe, o canto da ema é mau presságio, indica má sorte. Portanto, é preciso invocar o poder desconstituinte, cassar a procuração dada ao atual presidente, sob pena de extinção das emas e de mais de 70% da população da espécie dominante. A ema gemeu! E nós? Não vamos dar nem um pio?!