O segundo turno das eleições se aproxima e, a propósito da discussão sobre a influência das igrejas em questões do Estado, compartilho trecho de uma crônica de Carmen Dolores, um dos codinomes de Emília Moncorvo Bandeira de Mello, publicada no jornal Paiz, em 2 de agosto de 1908, colhido do arquivo da minha irmã, Ana Maria B. M. Magaldi. O texto tem 112 anos, mas me parece muito atual.

“A SEMANA 02/08/1908

O assunto da minha crônica de hoje não é talvez o mais próprio deste gênero de trabalho, cujo cunho característico reside sobretudo em certo superficialismo leve e elegantemente risonho e cético, roçando pelas questões do dia, mas nunca as atacando ou defendendo com gravidade prudonesca ou acaciana.

Domina-me, porém, nesta ocasião um sentimento tão intenso e profundo, de alcance tão emocionante, vindo aliás de causas já antigas e acumuladas, cujo efeito foi pouco a pouco se tornando irreprimível, que a mão me treme e não governo mais a pena, deixando que ela siga o seu insofrido impulso – mitigante, de resto, como todo o desabafo. E acusem-me depois do que quiserem – de ser ridícula ou de ser violenta.

A verdade é que o Sr. Conde de Afonso Celso, espírito fino e elevado, que muito acato no terreno particular, acaba de fazer uma conferência no atual Congresso Católico, muito interessante, como todos os discursos do distinto homem de letras, mas cuja essência se me afigura um perigo, no momento presente, em que esse perigo pode tomar proporções assustadoras.

Comparou o Sr. Afonso Celso a igreja católica a um exército em campanha, declarando que ela deve ter, como a arte militar, a estratégia, a tática, a diversidade dos modos de se disseminar na consciência humana. Mas, ao mesmo tempo, citou as palavras de Leão XIII, a todos acessíveis, como as de Jesus – disse o orador – e que resolvem a questão social: “Caridade em cima, resignação em baixo, em todos a fé, isto é, a esperança de outra vida melhor, de reparação, justiça e verdade.”

Ora, não me parece que haja muita coesão entre o que pregam estas palavras citadas e o conselho do ilustre conferente à igreja, para que ela arregimente as suas forças bélicas, aliás já possuídas da fúria invasora, e marche por cima de todas as barreiras, de todas as liberdades de um país que se não sabe defender contra coisa nenhuma, de todas as verdadeiras doutrinas de uma religião de paz e de amor, transformada em religião de ódio e domínio, desenvolvendo, como na arte militar, a estratégia dos planos, a tática manhosa e sutil, todos os meios, enfim, de contentar a paixão partidária e vencer – em nome de Deus.

Não, não há coesão absolutamente entre a aparência untuosa das palavras diplomáticas de Leão XIII, hábil político, e o fundo real da oração do Sr. Afonso Celso, que sintetizou, de resto, todo o pensar do congresso em massa. Ele, congresso, quando se reuniu, neste período já melindroso, se teve em vista o fim. Achando azada a ocasião, de aproveitar o terreno submisso ou simplesmente passivo, de esmagar as últimas resistências de alguns espíritos ainda rebeldes ao formidável jugo clerical, de impor o espetáculo das suas forças reunidas e agindo ao abrigo de máximas divinas, habilmente deturpadas, e de estabelecer, enfim, neste Brasil, a sua influência avassaladora, que desafia até os poderes governamentais da República.”