Quando somos invadidos por telefonemas com ofertas de cartões de crédito, empréstimos consignados e mais e mais vantagens das operadoras de telecomunicações, em geral, diante de tamanha e recorrente desfaçatez, despejamos nossa ira em pobres trabalhadores que, robotizados, recebendo pouco mais de um salário mínimo, trabalham duro no outro lado da linha.

Na realidade, são empregados de vilões bem protegidos que conduzem os negócios à distância, como quem comanda uma guerra longe do front. Entregam muita munição aos soldados e mandam atirar para todas as direções. Quanto mais pessoas “abatidas”, mais lucros terão, e pouco importa a utilidade do contrato oferecido.

Lógica semelhante é adotada posteriormente na assistência aos clientes. Quando algo não funciona no serviço comprado e é feita a reclamação, depois do odioso atendimento eletrônico, fica claro o desinteresse de agradar o consumidor. A distância dos atendentes com o problema é sentida até pelo sotaque do interlocutor.

Para reduzir custos, os donos dos negócios vão longe para pagar os menores salários aos trabalhadores. Quem nunca ouviu falar dos call centers da Índia, que atendem a boa parte do mundo anglo fônico? Nada disso é novidade, mas é preciso refletir melhor sobre os destinatários da nossa indignação, da nossa raiva.

É comum eu largar o que estou fazendo, correr para o telefone e ouvir: “boa tarde, falo com o Sr. Mauro? Sou a operadora Lindoneusa do Banco Tal e blá-blá-blá.” Aguardo a moça dar uma parada para respirar e digo que não estou interessado na oferta imperdível. Mas o que fazer depois da quinta ligação idêntica?! Bater com o telefone na cara de Lindoneusa? Xingá-la?! Se fosse minha filha no seu primeiro emprego? Ou a coitada que deixa os filhos sozinhos em casa para estar ali, aporrinhando os outros com a maior educação, a serviço de uma grande corporação? Não, ela não merece ser tratada com grosseria…

Como o governo faz ouvidos moucos, diante dos toques insistentes dos telefones que infernizam a vida de muitos, o que fazer? Inspirado no personagem interpretado por Ricardo Darin, no filme Relatos Selvagens, pergunto-me se contra essas invasões do telemarketing deveríamos comprar uma dúzia de bananas de dinamite, pesquisar seu manejo na Internet e colocá-las na sede do banco ou de outra empresa invasora… Obviamente, quando ninguém estiver trabalhando… Ou, por ato falho, no dia em que apenas o vice-presidente de marketing costuma fazer serão… BUM! O que Lindoneusa acharia disso?