
Eu morava num lugar silencioso até que, há dois anos, começou uma obra em frente à minha janela. Ainda vejo uma bela mata com macacos, passarinhos e até tucanos. Mas passei a conviver também, de segunda a sábado, com o barulho de serras circulares, furadeiras, britadeiras e betoneiras, todas empenhadas na construção de uma bela residência para abrigar uma família que deve estar ansiosa para morar num lugar tranquilo. Bem, por enquanto, isso só depende dela própria, basta a obra acabar. Será que se mudam antes do Natal?!
O projeto é de um arquiteto famoso e cheio de detalhes. Pergunto-me se há isolamento acústico nos cômodos… Aqui em casa não há e sou acordado bem cedo com os ruídos da construção desse sonho familiar e desse pesadelo para a vizinhança. 800 dias de barulho infernal! E o que fazer? Nada! A legislação em matéria de direito de vizinhança é muito liberal. De sete da manhã às dez da noite, ouvidos sensíveis que se explodam.
Hoje, fui acordado no meio de um sonho com meu ídolo Woody Woodpecker, o querido Pica Pau, e tive uma ideia. Não se trata de uma vendeta… Mas, no lugar da cesta de boas vindas usada nos filmes americanos para bisbilhotar a vida de quem chega ao bairro, decidi gravar a sinfonia diária que ouvimos nos últimos vinte e quatro meses para reproduzi-la com os mais efusivos decibéis na ocasião da primeira alvorada dos vizinhos. Também pensei em solos de violino do compositor Marlos Nobre interpretados pelo virtuose Bolinha França…
Seja como for, tanto quanto desejo o fim do raio da obra, espero que a família vizinha seja muito feliz no novo lar – a não ser que se revelem amantes de funk, de música sertaneja, de Arnold Shönberg ou decidam construir um puxadinho. Home noisy home.