Depois que o estupro culposo foi inventado no Brasil, descobre-se a existência da democracia culposa nos Estados Unidos, quando o eleitor não tem a intenção de eleger quem ganhará a disputa. Pior, quando a maioria sequer precisa votar no “vencedor”. Pois foi o que quase (será?) aconteceu na “maior democracia do mundo”. Aquela figura caricata de tons alaranjados quase ganhou mais quatro anos para continuar zombando do mundo.

Nunca subestimei a estupidez do ser humano nem uma das suas características marcantes: fazer ao outro aquilo que não gostaria que se lhe fosse feito. Defendemos o nosso pirão primeiro; estimulamos sacrifícios alheios que jamais suportaríamos; prescrevemos o remédio amargo para o outro, enquanto reservamos para nós os elixires mais saborosos. Enfim, pimenta para o paladar do outro é sempre refrescante. E isso se aplica a pessoas e a países nas relações internacionais.

Mas o processo eleitoral dos EUA neste ano foi um mico monumental, um verdadeiro King Kong. A começar pelas reações precoces do candidato à reeleição. Mal começou o jogo e Tramp já se autoproclamava vencedor, ao lado de convidados seus numa recepção na Casa Branca. A contagem dos votos seria irrelevante. Que topete! Mas, ora, quem não conhece bem esse topete? Ele sempre se fez notar até para os mais desatentos. Ainda assim, quase metade dos cidadãos da “maior potência do mundo livre” perfilou-se ao seu lado.

Mais adiante, no meio da partida, Tramp quis parar a contagem dos votos, colocar a bola embaixo do braço e trancar-se no Salão Oval. Um espetáculo deprimente! Numa coletiva de imprensa, a TV aberta de lá chegou a cortar a fala do presidente, diante das tantas mentiras que expelia. Well, aguardemos os próximos capítulos dessa história americana e vamos torcer para que Sua Excelência não tente consumar uma “conjunção eleitoral” mediante violência e grave ameaça. E, por favor, também não queremos ouvir novamente um “sorry, foi mal, fomos o primeiro país do mundo a pisar na Lua, mas não tínhamos a intenção de escolher um lunático para presidente”.