
O lembrete de hoje do Facebook sobre postagens do passado me deu um susto. Há um ano, Cecília fazia o seu vestibular…
“A redação do Enem
No meio da tarde de domingo, recebo o tema da redação do primeiro Enem da Era Bolsonaro. Minha filha de 17 anos está lá, se testando e sendo testada. Quer ser médica. Ela vai ter que escrever sobre a “democratização do acesso ao cinema no Brasil”… Caramba! Complicado…
Os quarenta anos que nos separam me garantiriam alguma coisa para improvisar: as carteirinhas falsas, o drops Dulcora, a bala Tofee, o friozinho na porta do Metro Tijuca… Mas o que isso tem a ver com democratização do acesso ao cinema?! Eu poderia escrever sobre a censura na época da minha adolescência…
Não me esqueço do dia em que assisti Laranja Mecânica, do Stanley Kubrick, no cinema Joia, em Copacabana. O filme dispensa apresentações, mas a bolinha preta que tentava cobrir “a parte mais íntima” da mulher que estava sendo violentada foi das coisas mais grotescas que vi. Nem sempre a tal bolinha conseguia esconder o que o departamento de censura mirava. Era uma corrida. Surreal!
Mas minha filha e os jovens da sua idade não têm registros muito precisos dessa época. De todo modo, assistiram, recentemente, a cores e em alta definição, ao filho do atual presidente da República – não tão mais velho do que ela – evocar o raio de uma sigla que, assim como a bolinha da censura, eu imaginava sepultada: AI 5. Lembro da conversa que tivemos sobre o assunto.
“Pai, que porra é essa?” Não fala porra, Cecília! “Mas o Bolsonaro fala, pai.” Ele é mal educado. “AI5 tem a ver com os filmes de espionagem, como KGB, CIA e MI6?” Mais ou menos… ou… sei lá! Você não estudou isso? Não acredito! Fecharam o Congresso, prenderam um monte de gente, sumiram com outras tantas. Não podíamos dizer o que pensávamos e a porrada comia solta. Estudantes como você eram todos comunistas, presos e torturados… O celular dela apitou e nossa conversa morreu.
O tempo voou. Hoje, lá está ela fazendo o Enem. Será que leu sobre a briga do Bolsonaro com a Ancine? Que seria extinta? Ela também pode escrever sobre os jovens mais pobres que conquistaram o direito de estudar cinema… sobre a meia entrada… Sei lá! Tomara que consiga! Eu com certeza teria viajado para longe e, óbvio, fugido do tema.”