Minha irmã, Ana Maria Bandeira de Mello Magaldi, historiadora, professora da UERJ e excessivamente modesta, me deu um grande presente: conhecer a avó do nosso avô paterno, uma escritora, jornalista e feminista da virada do século XIX para o XX. Carmen Dolores era um dos pseudônimos dela, de Emília Moncorvo Bandeira de Mello.

Muitas das suas crônicas foram publicadas na primeira página do jornal O Paiz, entre 1905 e 1910. Selecionei e compartilho com os amigos uma delas. Ainda falta muita coisa para ler. Quem gosta de história, de jornalismo e de política deverá gostar.

Crônica de Carmen Dolores, O Paiz, 9 de junho de 1907.

“Eu não sou socialista, nem acredito mesmo que o socialismo possa jamais vingar entre os homens, cujo egoísmo remonta ao pecado original; mas há injustiças que compungem e se se ergue então uma voz autorizada em nome do direito sempre preterido, uma alegria imensa brota da alma ressequida e amargurada que sofre em frente às desigualdades sociais, e não se contém o aplauso ao forte que ousou falar, ao sincero que não receou ir de encontro à arbitrariedade aceita e dominante.

Ora, esse aplauso, a minha pena, muito humilde e obscura, embora, vem trazer aqui ao vibrante Microcosmo*, de quinta-feira, em que o senhor Carlos de Laet tomou a peito defender, e com que lógica (!), os miseráveis interesses dos habitantes do morro da Favela. Francamente, a mim mesma pergunto: que pretende o governo com esse despejo continuo das classes desgraçadas, quando habitações mais salubres não são criadas e essa pobre gente enxotada não tem onde viver? Pretende a exterminação da pobreza pelo desabrigo e pela perseguição? Onde, porém, se irá depois buscar o braço operário para o trabalho da vasta cidade?

Algumas vezes chego a pensar que o novo Rio de Janeiro se tornou tão exigente em matéria de brilho e estética, que determinou varrer do seu seio todos os elementos capazes de marear a sua aparência de luxo. Morram os penuriosos à falta de um teto, mas abaixo tudo quanto é casebre – e nem se construam casas de operários, de indigentes, porque tem sempre de ser pobres e serão feias, indignas do aparato moderno. O que se quer, são palácios, automóveis, assinaturas exorbitantes para a Duse **, exibição de toilettes, fosforescências, espetáculos felizes…

Quanto ao resto, empregue-se a eloquente expressão francesa, que diz: Qu’ils crévent, voyons!… E abaixo os misérrimos refúgios de morros da Favella e da Babilônia, onde a necessidade se esconde dos palácios, encolhida, selvagem e intimidada: abaixo choupanas, choças, palhoças, ranchos, a lareira onde ferve um pouco de sopa, o teto de folhas que protege contra os aguaceiros, o cercadinho das galinhas, cuja venda fornece o pão e o café… Abaixo tudo! E marcha, novo pai Adão, para fora do teu lastimoso paraíso, que nem este, nem outro, pior ou melhor, tu encontrarás mais para teu abrigo.

A cidade enfeitou-se, pôs-se bela e só tem casas para os ricos. Nestas condições, um artigo como o do Sr. Carlos Laet, palavras tão generosas, aliás também repetidas por alguns outros jornais humanitários, fazem bem à alma, deixam a impressão que, no meio das superficialidades arrogantes da vida dinheirosa, alguns espíritos mais profundos pensam no triste reverso da medalha e pleiteiam a causa de indigentes e perseguidos, pedindo ao menos para eles um lar, por mais humilde que seja, nas furnas da Tijuca, na Favella, em qualquer canto muito feio, mas onde o pobre possa também viver, comer, dormir, como todo mundo…”

*Coluna no Jornal do Commercio

**Eleonora Duse, atriz famosa no final do século 19 e início do 20