
Diante de tantos incêndios, da floresta em chamas, muita gente deve estar pensando na conveniência de internacionalização do Pantanal, da Amazônia e de outros biomas importantes. É de cortar o coração assistir ao sofrimento dos principais donos dessas regiões: os bichos, a flora e as populações indígenas. Mas, afora o prazer de instigar nacionalistas selvagens e o rebanho presidencial, é preciso refletir bem sobre essa tese.
A burrice, a canalhice e a cobiça não são exclusivas do Brasil. A Europa fechou suas fronteiras para famílias do Norte da África e do Oriente Médio que não fugiam do fogo, mas desesperadamente da fome e da guerra. Muitos morreram afogados e a imagem do menino sírio Aylan Kurdi numa praia da Turquia é inesquecível. Sabemos que tem gente européia que vota em Viktor Orbán, na Hungria, na família Le Pen, na França, e, para economizarmos muitos exemplos, não nos esqueçamos do cidadão austríaco que governou a Alemanha da respeitável Angela Merkel entre 1933 e um tiro na cabeça em 1945.
Esse mundo é dos loucos e, como não se cogita deixar índios e um grupo restrito de “homens brancos” que respeitam a Natureza tomarem conta das nossas florestas, matas e rios, sugiro um paliativo de curto prazo: internacionalizemos o atual governo federal! É razoável e seria didático.
O chanceler Araújo pode ser o primeiro da lista, abrindo espaço para a Diplomacia brasileira voltar a atuar com diplomacia. Mas o futuro ex-chanceler poderá continuar sua carreira, representando o Brasil nas coordenadas 21º de latitude Norte e -10º de longitude Oeste. Um avião da FAB o levaria até o Aeroporto Internacional de Nouakchott, na capital da Mauritânia, e, de lá, o zero um do Itamaraty seguiria por terra ao seu destino. O clima é muito seco, é verdade, mas… Brasil acima de tudo!
O general-ministro da Saúde seria internacionalizado para a aprazível Ilha de Vozrozhdeniya, no Uzbequistão. Lá, o doutor honoris causa, padrinho da cloroquina, poderá avaliar os experimentos biológicos da antiga União Soviética: antraz, transmissores de varíola, de peste bubônica e outras cositas más. Os roedores que habitam a região são dóceis, mas aconselha-se o uso do EPI – equipamento de proteção individual.
Já Ricardo Salles, ex-membro do Partido Novo e futuro ex-ministro do Meio Ambiente, seria internacionalizado para Norilsk, ao Norte da Rússia, e realizaria o sonho de morar numa das principais regiões produtoras de níquel do mundo. Não terá problema com árvores. Em Norilsk, elas são muito raras, em parte, devido à chuva tóxica das quatro milhões de toneladas de metais pesados e venenos liberados no ar a cada ano. Quanto ao cheirinho de enxofre, é questão de costume.
Heleno e Mourão seguiriam para o Haiti, juntamente com os demais membros da “ala militar”. Dedicar-se-iam a pintar troncos de árvores e meios fios de branco, com uma solução de cloroquina e cal virgem. Êpa! Virgem?! E a Damares? Como internacionalizar figura tão peculiar? Pensemos juntos… Seja para onde for, é preciso que ela possa continuar a trepar em goiabeiras.
Last but not least, Guedes seria exportado para a Coréia do Norte. Já conhece muito bem o idioma e implantaria sua cartilha liberal ao lado do estadista Kim Jong-un. Quanto à família B… Bem… O ideal seria suportar uma reação da Mãe Natureza, mas minha mulher me sopra num ouvido e a autocensura no outro… Ambas crêem que devo parar por aqui. Já usei muitos caracteres e, se disser o que vislumbro, posso ser mal interpretado… Sabe como é… Portanto, deixo que a internacionalização da família B seja decidida pelo amigo leitor. Mas espero do fundo do coração que ela não saia muito rachadinha da experiência dos últimos anos. Quem sabe a Suíça? Lá, como toda família de bem, poderá fazer fortuna rapidamente com uma loja de chocolates.