1948 foi o ano da estréia de Festim Diabólico de Alfred Hitchcock. O título original, “Rope”, corda em inglês, se explica logo na primeira cena, quando dois jovens amigos, Brandon e Phillip, estrangulam um colega com uma corda e colocam o cadáver dentro de uma arca sobre a qual, minutos depois, seria servido um jantar. Entre os convidados, o pai da vítima, sua namorada e um antigo professor dos rapazes, interpretado por James Stewart.

Não é dos filmes mais populares do mestre do suspense, mas é interessantíssimo. O assassinato é motivado para provar que é possível cometer um crime perfeito. Mas, enquanto um dos assassinos se extasia com os requintes de uma festa realizada sobre um cadáver, o outro se apavora, com receio de ser descoberto diante das provocações do cúmplice, que fala aos convidados sobre o ato de matar e, junto com a câmera, circula pelo apartamento esticando a corda, a arma do crime.

E esticar a corda o tempo todo é o que faz a principal autoridade pública do Brasil, desde que assumiu o cargo. O presidente da República contraria a Ciência, incendeia florestas, sai nas ruas apertando a mão de incautos no meio de uma pandemia, provoca o Congresso e o Poder Judiciário, além de financiar um exército de disseminadores de mentiras. E, pior, faz escola, no sentido de se tornar modelo até mesmo para quem se diz cristão.  

Mas quando um amigo íntimo e braço direito do seu primogênito foi preso na casa do seu advogado, Sua Excelência foi obrigado a afrouxar a corda, impondo-se uma quarentena de silêncio. Mas durou pouco, pois ofendeu o país quando, tal como um rato acuado, ameaçou um jornalista de partir para as vias de fato, ao ser indagado sobre um fato, o do depósito de R$ 89 mil feito pelo motorista do filho na conta da Primeira Dama.

Diferentemente do Brasil, “Rope” é uma obra de ficção, e qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência. Já aqui, não sei quando nem como essa festa diabólica vai acabar. Uma sucessão de crimes vem sendo cometida, mas nenhum dos demais protagonistas da República se digna a reagir. É como se estivéssemos todos numa festa sobre um Brasil morto. Não direi se os assassinos do filme são punidos. Vale a pena assistir. É ficção. O suspense sufoca e vai até o fim.