Ah, o óbvio! Quando finalmente fará jus ao seu significado e o homo – que se julga muito sapiens – vai parar de complicar as coisas? Neste sentido, empunhando a bandeira do óbvio, decidi me lançar candidato a presidente da minha cidade nas eleições de novembro. Adotei o nome político de Ululante e, em primeiríssima mão, informo os slogans da campanha: “Prometo o óbvio!”, “Neles, não, óbvio!”, “Escolha o óbvio!”, “Avante Ululante!”.

Não defendo o saneamento básico, defendo o saneamento óbvio! Os ônibus têm que parar no ponto, óbvio! A luz precisa acender. O gás, aquecer. A água não pode ter geosmina e lugar de autódromo, óbvio, não é na floresta! Também é óbvio que as escolas são espaços para crianças e jovens crescerem e aprenderem com prazer, ao lado de educadores felizes. Tiroteio perto de escola? Onde já se viu?! É mais do que óbvio que não! E é óbvio que tem que ter médico nos postos de saúde para ouvir e tratar os pacientes. Morar em áreas de risco, em casas minúsculas e inacabadas? É óbvio que não! Fome, não se discute.

É óbvio que não estou animado, mas o índice de rejeição ao óbvio não deve ser alto e meus adversários não sabem nem por onde começar um arroz com feijão. Eles acham que o óbvio são os megaeventos, as mega-promessas e as mega obras. São férias de dois meses só para juízes; é o tal foro privilegiado; é a saúde como um plano e a educação como mercadoria. Admitem que a renda de poucos possa ser cem vezes maior que a de muitos, mas não dizem isso em público, óbvio. Exaltam a honestidade que não têm e dizem o que a maioria gostaria de ouvir, de acordo com pesquisas de opinião.

É triste, no Brasil e em boa parte do mundo o óbvio virou utopia. A lei que nos preside é a da farinha pouca, meu pirão primeiro, pois temos que levar vantagem em tudo, certo? Por aqui, a lógica continua sendo a de que o bolo precisa crescer muito para ser dividido, mesmo que tenha criança lambendo os beiços e morrendo de fome. Sua Excelência, o óbvio (minhas modestas homenagens ao grande Nelson Rodrigues), ulula, uiva, grita, berra por casa, comida, água limpa, segurança, educação e saúde para todos. Mas o gigante adormecido continua roncando alto e desconfio que nem quer acordar, pois, se abrir os olhos, corre o risco de levar um baita susto e fechar os olhos de vez.

Então, meu povo, minha cara eleitora, meu caro eleitor, nas próximas eleições, que tal fazer diferente? Neles, que nunca fizeram o óbvio da maneira óbvia, pelo amor de Deus, não! De novo, não! Vote Ululante! Juntos, começaremos a construir Ululândia, onde não faltará o óbvio para ninguém.