Não sei se minha avó Aurora tinha muitas manias ou era simplesmente tradicional. Também não sei se é uma mania ser tradicional… O fato é que ela só admitia comprar bacalhau na Colombo, que tinha uma loja voltada para a Rua Sete de Setembro. Presentes de casamento, só comprava o mesmo conjunto de pratos de bolo na Casa Daniel, na Rua Gonçalves Dias. E não tinha essa coisa de ser casamento de príncipe ou de plebeu. Presente de casamento era aquele. Afinal, rico ou pobre, quem não gosta de pratos de bolo? Ainda mais os da Casa Daniel… Vovó também era fiel à brilhantina Relíquia, comprada na Perfumaria Carneiro. Nas idas à cidade havia sempre muito que fazer. Não podia se esquecer das pilhas para os seus três rádios, lógico, sempre da mesma marca e na mesma loja da Rua Uruguaiana. Minha avó tinha um rádio para cada uma das três estações que ouvia. Mexer no sintonizador, nem pensar! Ela tinha um aparelho para a rádio Globo, outro para a Tupi e o terceiro para a rádio Nacional.

Os rádios de pilha não me fazem falta, mas gostaria que determinadas marcas do Rio de Janeiro tivessem sobrevivido ao “progresso”. Temos referências fortes e belíssimas da paisagem natural, mas, ainda assim, sem garantias de que resistirão com o tempo. Não nos esqueçamos de que ao longo da história de urbanização da cidade, desmontaram o Morro do Castelo, aterraram o mar e construíram muitas sombras nas praias. Não comparo o Rio com a Itabira de Carlos Drummond de Andrade, onde uma mineradora sumiu com o Pico do Cauê, mas não sei, não… Se tivessem encontrado algum metal precioso no Corcovado, na Pedra da Gávea ou no Pão de Açúcar, a nossa paisagem seria outra. Até o Dedo Deus, que avistamos de longe, teria sido vendido depois da negociação dos seus anéis.

E se os acidentes geográficos naturais não são imunes à burrice humana, muito menos alguns simples marcos da cultura, como as lojas da minha avó. Os shoppings centers foram permitidos em áreas centrais e varreram o comércio de rua. Teatros e cinemas foram transformados em igrejas e farmácias ou foram demolidos. A Praça Saens Peña, na Tijuca, como muitas, está de doer, assim como as condições de moradia e de transporte da maioria dos cariocas são literalmente de matar.

É difícil driblar o saudosismo e o pessimismo ganha força a cada quatro anos, quando o carioca escolhe seus governantes a dedo. Não o de Deus, óbvio. Tradição, por aqui, só a dos maus serviços, como os prestados pela família Barata, no ramo de transportes desde 1950, e por outros sobrenomes conhecidos do mercado imobiliário. Não bastasse tanto estrago, o prefeito-bispo, candidato à reeleição, quer construir um autódromo numa floresta e lotear as praias, que passariam a ser acessíveis por aplicativos na internet. O poeta, que amava demais o Rio, sentado em bronze no Posto Seis, não diria que a nossa cidade é apenas uma fotografia na parede, como Itabira. Mas caminhamos para isso, amigo leitor… Como dói vê-la cada dia pior.