
Papel essencial
Herdei de um amigo o transtorno obsessivo compulsivo, vulgo toc, de colocar – corrigir, se for o caso – o rolo do papel higiênico desenrolando sempre pela frente. Explicando pior, o movimento do papel, olhando-se pelo lado esquerdo, tem que ser no sentido horário. Ou imagine qualquer uma das quedas d’água das cataratas do Iguaçu. A natureza é sábia…
Mas vamos ao principal. No início da pandemia, o papel higiênico sumiu das prateleiras de muitas nações do Primeiro Mundo. Em reportagem do jornal El Pais (18/3/2020), um professor de marketing assentou que momentos de estresse fazem que as compras tenham um componente mais emocional e o papel do papel higiênico é fundamental.
Eu não tinha essa visão madura e refletida quando, na infância, acompanhava minha mãe ao mercado. Morria de vergonha quando ela colocava montanhas de papel higiênico no carrinho. “Mãe, o que vão pensar da gente?”, dizia, eu. Nessa época das compras nas Casas da Banha ou no Pegue e Pague não havia a profusão de marcas de papel higiênico que temos hoje em qualquer mercado. Aliás, todos os produtos, de uma forma geral. Biscoitos, por exemplo, além do odioso Maria e do Cream-Crackers, não havia muitos. Os produtos de limpeza também eram poucos: faísca, cera, sabão de coco, detergente ODD… “O que é que brilha mais? O assoalho da mamãe ou o sapato do papai?”
Mas o “progresso” chegou e a indústria passou a oferecer uma infinidade de novos produtos. As propagandas preconceituosas e sexistas perderam terreno, apesar de que, refletindo bem, aquela do mordomo levando o rolo de papel Neve numa bandeja de prata, sei não… Seja como for, o papel higiênico ganhou perfume, suavidade, folhas duplas, triplas e, detalhe importante, as folhas vêm picotadas. No passado, as rasgávamos. Será que meu amigo cortava com uma tesoura ou ainda não tinha desenvolvido seu toc?
Eu já ia encerrar esta crônica da quarentena, quando encontrei a cereja desse bolo da memória. Conto uma situação vivida por um saudosíssimo amigo, em Paris. Lá estava o Zé, perdido nas ruas do Marais, com uma vontade napoleônica de ir ao banheiro. Não existia celular, GPS e ele não falava bem o francês. Zé dispunha apenas de um mapa, daqueles com propagandas das Galerias Laffayette.
Dada a circunstância, imagino a pressão do querido amigo para descobrir o caminho do hotel, entrar, pedir a clé, s’il vous plaît, subir as escadas forradas de tapete, colocar a chave na fechadura, girar e abrir a porta. Ulálá, diriam os franceses… Mas, antes disso tudo, Zé capitulou, perdeu a batalha de se encontrar, mas me disse que não perdera a guerra. Entrou num jardim, despiu-se, fez o inevitável e, acreditem, não é ficção, por vingança, limpou-se com o mapa! Ah, o velho e bom papel! Nenhuma geringonça eletrônica o substitui. Ah, memória! O nome do papel higiênico da minha infância era Finesse. Saudade dos tempos do Finesse… Muita saudade do Zé…