Foto de Sérgio Cardoso

Passados quatro meses do início da quarentena, decidimos pegar o carro para passar o final de semana na casa de uma cunhada em Tiradentes. O trajeto é por Petrópolis e, a não ser pelo pedágio e pelas condições ainda piores da pista, a subida da serra é para lá de familiar. As ciganas da Casa do Alemão sumiram, mas o pão com lingüiça é o mesmo, assim como continuam à venda no acostamento os tapetes coloridos de fiapos e os cachos de banana ouro. Se não tivéssemos enfrentado um engarrafamento na Linha Vermelha e outro na altura de Caxias, teríamos gasto 50 minutos, e não o dobro.

De Petrópolis a Juiz de Fora, seguimos por uma Washington Luís modernizada há 40 anos. Mas não há do que reclamar. O problema vem depois. Na rodovia que liga duas das maiores metrópoles do país há quebra-molas e pardais eletrônicos de sobra. Perto da entrada de Ewbanc da Câmara, a velocidade máxima é de 30 km/h. Acho que nem na época do presidente que dá o nome à estrada dirigia-se tão devagar e a multa é uma certeza! Mais adiante, após o restaurante Pachecão, avistam-se as lajes da aprazível Santos Dumont, antiga Palmira, ornadas de antenas parabólicas e caixas d’água azuis. Quem conhece o lugar compreende por que seu filho mais ilustre inventou o avião…

Chega Barbacena. Depois de um mar de lajes e de telhados de zinco, saímos da rodovia principal e tomamos a Estrada Real, que nos levaria a Tiradentes sem direito a pista dupla. À esquerda, vejo o campanário de uma igreja da cidade de Quincas Borba atrás de um conjunto de prédios do programa Minha Casa Minha Vida. Por que as casas das nossas vidas não podem ser bonitas?

O carro alcança a velocidade de cruzeiro, mas por pouco tempo. A largura da Estrada Real é a mesma há três séculos e é preciso ter fé diante da romaria de caminhões. Consigo uma ultrapassagem, mas logo surge outra pedra no caminho, dessa vez, do Supermercado Sales, com o número do telefone para informarmos “como dirijo”. Muito devagar, lógico!

Uma placa indica a proximidade de Barroso. Lá funciona uma usina de cimento e tenho esperança de me livrar de algumas carretas. Mas sou obrigado a diminuir a velocidade para fotografar o que um dia entrará para a história da arquitetura brasileira do século XXI: o prédio do Motel Dreams. A fachada, em forma de chifre, é revestida de azulejos pretos. Uma (des) graça!

Mas, 40 minutos depois, chegada a hora de virar à direita para o acesso a Tiradentes, o espírito é recompensado. Ao fundo, vejo a Serra de São José. Já bem pertinho do lindíssimo centro histórico com suas construções coloniais, um último sobressalto: uma lanchonete reproduz na fachada as colunas do Palácio da Alvorada. Mas não devo ficar procurando pontos pretos em paredes brancas. Tiradentes é uma cidade linda, ao pé de uma linda serra. O percurso maltrata um pouco, é verdade, há que ter paciência, mas vale muitíssimo a pena conhecer essa jóia talhada há 300 anos.