
Ao acessar meu arquivo morto, felizmente, ainda vivo, pincei uma peça de teatro que nunca deixou minha memória: O Suicídio, do russo Nikolai Erdman, que assisti no Teatro dos Quatro sabe lá quando. Fui ao site do Sergio Britto e lá estão as fotos da peça e seu elenco: Henriqueta Brieba, Luis de Lima, Ana Lucia Torre, Laerte Morroni, Isolda Cresta, Sergio Brito… A direção foi de Paulo Mamede, mas não encontrei o roteiro nem maiores informações sobre o argumento da peça – o que me obriga a lançar mão dos meus neurônios com todos os riscos que isso representa. Vamos lá!
Laerte Morroni faz o papel de Semyon, um rapaz desiludido que descobre que a saída para os seus infortúnios é tocar tuba! Mas ele se dá conta de que tocar tuba não é tão simples. Primeiro, é preciso ter o instrumento, e, pensando bem, os solos de tuba – se é que existem – não o tornariam um músico bem sucedido. Também seria preciso uma orquestra, que ofuscaria a tuba, e o protagonista da peça logo se frustra, concluindo que sua única saída é a morte. Semyon decide suicidar-se.
Quando o plano do suicídio corre a vizinhança, a história toma um rumo inusitado. Várias pessoas surgem para tirar proveito da morte do miserável e promover objetivos próprios. Um líder operário pede que Semyon se mate pela causa operária e tenta convencê-lo de que ao se matar entrará para a História. Uma mulher romântica, por sua vez, pede que Semyon se mate por ela. Uma carta revelará que a causa do suicídio terá sido um amor não correspondido. Não me lembro das outras propostas para o suicida, mas, diante da perspectiva da morte, a vida de Semyon ganha a importância que nunca teve.
A peça é genial! Imagino que surgiu agora em razão deste ano de 2020 tão obscuro. Somos fustigados todos os dias por péssimos exemplos no mundo das relações. Egoísmo, intolerância, violência e burrice grassam e continuamos presos, aguardando um sinal confiável para sair ou fugir. E para quê? Para o Estado apontar fuzis na direção de rostos protegidos do vírus? Para cruzarmos nas ruas com 30% de fascistas, defendendo o indefensável e festejando o estrupício-mor num cavalo, pensando em si e debochando da tristeza de 70% que não o toleram? Bem, aguardemos a próxima sexta-feira, o próximo domingo… Sair ou não sair, fugir ou não fugir, eis as questões. Quanto à peça, não vou contar o final. Semyon aprende a tocar tuba? Ele se mata por amor, pela política ou desiste do suicídio? Quem sabe o final é feliz?