
Em 28/4/2020
Inquietante, para dizer pouco, o artigo “Quarentenas intermitentes” da economista Monica de Bolle, publicado no Estadão no último dia 22 de abril. Ela projeta um mundo de sociedades infectadas que terão que se submeter a quarentenas freqüentes – o que exigirá a reinvenção da economia e, a reboque, uma revolução de hábitos. De Bolle escreve: “Não retornaremos ao mundo que conhecíamos em janeiro de 2020 tão cedo – talvez esse mundo tenha já desaparecido para sempre”.
Nunca acreditei que determinadas tragédias pudessem acontecer comigo. Nunca me imaginei num desastre aéreo ou que um raio caísse justamente em cima da minha cabeça. Mas a coisa está muito esquisita… Se confirmada a “profecia de Bolle”, muitas ações e hábitos deixarão de existir. Quase tudo vai mudar… Até os verbos correrão riscos, cairão em desuso… É certo que procrastinar, corroborar e tergiversar podem ir para o Inferno, mas me dói pensar em abrir mão de outros tantos. Dois queridos me vem logo à cabeça: viajar, óbvio, e flanar.
Flanar seria uma perda inestimável… Ele é intransitivo, se basta, dispensa complementos. Flanar é simplesmente flanar, pensar ou não pensar em movimento… Sair por aí sem destino certo e, dependendo do caminho, ter boas surpresas. A associação com Paris (desculpem voltar a esta cidade) é direta. Lá, o “pieton” flana por ruas e passagens quase secretas… e se encanta. O Rio também tem encantos, muitos, mas flanar por aqui sem certos cuidados, hoje em dia, pode ser arriscado. A falta de segurança e o estado deplorável das ruas e calçadas quase sempre inibem os nossos passos. Mas, diante do fim do mundo, alguns dirão que deixar de flanar e viajar não terá a menor importância. Sem dúvida, urgências é que não faltam, mas, para mim, são verbos tão imperativos…
Seja como for, o ser humano sempre se adapta a novos tempos e formas de vida… e lembro-me da tia Maninha, irmã do meu avô, que costumava dizer que não precisava sair do quarto para viajar e conhecer o mundo. Além dos livros, ela tinha Amaral Neto, o repórter. Parênteses! Nota do tradutor! Era um programa da televisão dos anos 1970 e eu era muito novo. Fecho os parênteses. Sei que existem os tours virtuais… Mas qual é o ser humano que consegue ter prazer com um donwload? Como capturar a essência dos lugares a partir da tela de um computador? E o frio ou o calor dos nossos destinos? E os cheiros? Até a saudade e a vontade de voltar? Melhor não profetizar e ter certeza da chegada da vacina…