
Entre leituras instantâneas nas redes sociais, ao reparar na Cecília comendo um miojo surgido do nada, minha memória retrocedeu ao tempo em que tinha sua idade, 1981. No ano anterior, eu tinha perdido um grande amigo e uma enorme referência na vida, meu avô Adriano. Mesmo não tendo ido muito além de Águas da Prata e Caxambu – suas estações de água – meu avô adorava viajar e seu grande sonho era conhecer a Normandia. Ele também adorava vacas, portanto, talvez tenha juntado as duas coisas no mesmo sonho de conhecer os pastos dessa região do noroeste da França.
Mas meu avô não podia ir muito longe. Minha avó morria de medo de qualquer meio de transporte pelo mar ou pelo ar. E ela, a avó Anna, era sua companheira inseparável, muito mais importante do que qualquer outro sonho. Lembro-me que, sete anos antes, fui com ele à cidade (o Centro) para comprar uma viagem de três semanas de navio, do Rio até o Amazonas. Eu e ele estávamos animados. Ele tinha lá suas esperanças, mas, uma semana antes de o navio zarpar, ele e minha avó decidiram que não iriam embarcar. Ela estava morrendo de medo, ele amorosamente cedeu e fomos somente meus pais e minha irmã. Vovô ficou fora da aventura…
Em 1979, andei de avião pela primeira vez… e foi com ele. Fomos a Salvador. Minha avó tinha morrido no ano anterior e fomos nós dois. Mas viajar já não tinha graça para ele. Certamente, foi para me fazer feliz. Os dois nasceram e se conheceram em Salvador e logo se mudaram para o Rio, onde viveram a maior parte das suas vidas. Mas eu vibrei por andar de avião, e da Varig! Antes, eu sonhava ter coqueluche para poder voar. Ouvia que era assim que se tratava a doença. Mas só fui agraciado com uma catapora e uma rubéola, ambas tratadas em terra firme.
Um ano depois dessa viagem a Salvador, meu avô quis morrer. O sonho da Normandia não se realizou, mas tenho certeza de que ele deixou muitas sementes. Em 1981, depois de convencer meus pais, tive o privilégio de realizar o sonho da viagem à França, uma viagem solo, só eu e eu.
Viajar é dos meus maiores prazeres. E pode ser para bem perto, que já é bom, como ir a Secretário, onde o avô Adriano teve um sítio, lógico, com vacas. Uma vez, alguém me disse que ele bateu com o carro num barranco porque se distraiu vendo uma vaquinha holandesa que devia ser realmente linda…
Mas essa viagem do miojo está indo longe demais… O fato é que Cecília me lembrou tudo isso, que nada era instantâneo em 1981. Nada era aparentemente fácil, nada era on-line… Internet? O que era isso?! Se eu tivesse que inventar uma definição na deliciosa brincadeira do dicionário, diria: Internet – substantivo feminino. Torcedora do Internacional Futebol Clube, que entra em campo com a bandeira do time gaúcho vestida com o uniforme colorado.
1981, setembro… Consegui chegar a Paris. Recordo-me de ter começado a rir quando avistei o Sena e a Notre-Dame, apesar do medo de estar viajando sozinho com francos franceses na cueca, sem saber ao certo por onde começar. Não dava para colocar Paris no Google, no Tripadvisor, fazer buscas de alojamentos no Booking.com, etc.
Onde ficar? Comer o quê? Tudo foi decidido sur place. O bairro de Saint-Germain-des-Prés não era tão chique como hoje e seus hotéis eram pagáveis. Fiquei na Rue des Saints-Pères e a primeira refeição foi um steack au poivre. Sabia que era um bife e aprendi o que era poivre depois da primeira garfada, mas me salvei com a sobremesa, uma inesquecível tarte aux pommes. Que aventura essa… agora, sim, instantânea na memória.