
Em 15/2/2020
Se nossa última ida a Portugal não tivesse sido deliciosa por mil razões, a conversa com o taxista que nos levou ao aeroporto já teria bastado. Com aquele sotaque que adorámos, ele conduzia sua carrinha, falando de Lisboa e, detalhe, ao final de cada frase ria, dizia um “hein” e me dava um tapa na perna. Também perguntava sobre o Brasil. Perguntas retóricas, lógico. Sabia tudo! Impossível reproduzir fielmente esse “talk and drive show”, mas a memória, se faz favor, com sotaque, guardou alguma coisa…
“Lisboa é fantástica. Temos cá de tudo… e os senhores ficaram num bom hotel, hein? Central!” Primeiro tapa. “Vão para São Paulo ou para o Rio? Ah!” Tapa! “Vão ao Carnaval, já sei. Hahaha. Aquilo é tremendo, hein?! Muita festa… mas morrem pessoas… Melhor ficar em casa.” Tapa! “Ou ficar cá em Lisboa! Hahaha!”
Nós gostaríamos de ficar, eu consegui dizer rapidamente.
“Ah! Que fiquem, ora! Hahaha.” Tapa! “A comida é apetitosa. Peixes frescos pescados no nosso Atlântico… E o vinho, hein?” Tapa! “Muito bons! Há bons vinhos em Portugal… Mas o senhor vai trabalhar já na segunda? Ainda dá para passear com a família… Hahaha.” Tapa!
“E o que faz o senhor no Brasil? Ah! É advogado?” Tapa!!!!!! “E a senhora? E a menina? Quantos anos tem a menina? Dezoito? Hahaha. É mulher.” Tapa! “Há muita violência no Brasil… Cá, vivemos bem, seguros.” Tapa! “Alguns carteiristas. Hahaha! E o Bolsonaro? Só pensa n’armas… Quer armar o povo com pistolas?” Tapa! “O Lula era melhor, era bom. E a Dilma? Fraquinha…” Tapa! “E o Temer? Hahaha! Há muitos bandidos no Brasil.” Tapa! “Vão de TAP? Não? De Ibéria? A TAP é boa! A Ibéria é espanhola.” Tapa! “Mas a TAP é mais cara, hein? O dobro? Ou setenta e cinco por cento? Hahaha.” Tapa! “Este aeroporto é uma mina. Cobram três euros por 10 minutos aos particulares. Hahaha! São uns gatunos!” Tapa!! “Ora, cá chegamos. Façam boa viagem! E voltem! Hahaha.”
Saímos do carro felizes da vida. Eu, com a perna esquerda lá meio róxa…