A imagem pode conter: atividades ao ar livre e natureza

Em 3/5/2020

Nunca mais vi uma folhinha. Aliás, tive que esclarecer Cecília que eram calendários do passado, impressos com ilustrações bacanas, que pendurávamos na parede para acompanhar a passagem do tempo. Havia umas bem bonitas. Quando chegavam lá em casa, eu ia direto ao mês de junho, do meu aniversário, e comparava com as imagens dos meses dos aniversários dos meus irmãos.

Lembro-me de uma folhinha com fotografias da Suíça. Para minha decepção, não havia neve no mês de junho e aprendi a diferença das quatro estações nos dois hemisférios. Noutro ano, chegou uma com reproduções de pinturas famosas. A de junho era um auto-retrato do Van Gogh com um pano envolvendo seu rosto. Achei feio e soube que ele tinha arrancado a orelha. Como assim, arrancar a própria orelha? Aquilo me impressionou e nunca mais me esqueci da imagem nem do nome do pintor que anos mais tarde me encantaria com seus girassóis.

Essas recordações da infância surgiram na manhã do último primeiro de maio. Cecília tem um calendário de madeira de encaixe, com os números dos dias e os nomes dos meses. Ela se lixa para precisão do calendário e sou eu quem vai lá atualizar a data. Será TOC? O fato é que não consigo, em maio, passar por um calendário que indique abril. O dia errado, tudo bem, eu resisto. Mas o mês? Acho que é por isso que as folhinhas tinham 12 imagens diferentes. Era muito bom mudar a paisagem, ajustar a data e observar a mudança das estações, ainda que não neve no Rio… muito menos em janeiro e fevereiro.

Mas para quê os jovens de hoje contariam o tempo? É certo que acompanham dias e minutos para as férias (no telefone)… No século passado, com a mesma idade, eu também ansiava por férias. Mas a passagem do tempo tinha outra dimensão. Era com o tempo que determinadas janelas se abriam, por mais que tentássemos espiar pelas frestas. Tive, por exemplo, que entrar com uma carteirinha falsa para assistir Tubarão no Metro Tijuca. Ter 14 anos era importantíssimo, eu só tinha 13 e o suspense começou antes do filme…

Lembro-me também, antes dos 13, da excitação de assistir O Golpe de Mestre, proibido para menores de 18, e Romeu e Julieta, do Zefirelli, em Teresópolis, onde os fiscais da entrada eram mais liberais. Fiquei impressionadíssimo com a primeira cena de nu que vi no cinema. Apareceu a bunda do Romeu, quando ele buscava a janela para fugir do quarto da Julieta. Mas, hoje, quem tem 13 anos assiste ao que quer pela Internet, cenas que, antes, só eram liberadas depois que completávamos os 18, num cinema de cidade do interior ou, voltando a elas… em algumas folhinhas penduradas no borracheiro da esquina.