Nenhuma descrição de foto disponível.

Em 22/4/2020

38 dias sem sair de casa e até feijão estou plantando na janela. Deve ser coisa do meu inconsciente, planejando uma fuga para o Céu. Mas, na real, nada tenho a reclamar. Sou um privilegiado não essencial, que trabalha em casa e de casa.

Vírgula!!! Tenho, sim, temos, todos, muito a reclamar. As notícias do capiroto, as imagens do capiroto e, pior, a voz do capiroto entram nas nossas casas. Aquele timbre horroroso, aquela dicção lamentável, que só não rivalizam com o conteúdo das suas mensagens toscas, sugam a minha energia e põem em risco a integridade das minhas plantas. Aquele troço que ora ri, ora vocifera, que cita passagens bíblicas mal decoradas, xinga, diz e desdiz… com aquela voz… com aquela falta de cultura… Sem falar da prole. A “hole family” é responsável pelo meu “home hell”.

Eu deveria me desconectar – ouço meu anjinho aconselhar. Mas eu deixaria de acessar os canais das boas notícias, da arte e, sobretudo, me privaria da companhia virtual de amigos queridos. Teria perdido, por exemplo, a extraordinária apresentação do tenor Andrea Bocceli no domingo de Páscoa – um som arrepiante que veio de dentro da catedral de Milão ilustrado por imagens de cidades emblemáticas do planeta inteiramente vazias. A Torre Eiffel, em Paris, Trafalgar Square, em Londres, Times Square, em Nova York, a Praça de São Marcos, em Veneza…

Bocceli, cego desde os 12 anos, não enxerga suas numerosas platéias acumuladas numa carreira de muito sucesso. Mas, sem dúvida, sempre as sentiu. E deve ter sentido em Milão a emoção especial de milhões de espectadores de todos os continentes numa celebração pela vida. Foi o meu “home heaven”.

Mas como a boa notícia para a imprensa é a má notícia, não se escapa daquela voz dos subterrâneos… daquele “tá okay” grotesco, daquela atmosfera de miasmas. Então, lembro-me de uma amiga que, ao se descobrir diabética, disse teatralmente que poderia se suicidar com fios de ovos. Ah, se ela estivesse viva no meio dessa pandemia! Ah, se visse Jair Bolsonaro com a faixa presidencial! Não tenho dúvida, ela partiria para um abraço coletivo.

Calma! Outra cena. Não é o fim. Na posição de lótus, fechemos bem os olhos para ouvir a voz de Andrea Bocceli. Panis angelicus… No canto, há esperança.