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Em 20/3/2020

Resisti ao Facebook durante muito tempo. Depois, passei a encarar essa rede como um ambiente de interação saudável: pontos de vista diversos, fatos interessantes, humor, fotografia, pautas musicais do meu amigo Murilo Rocha e a indispensável boa provocação. As críticas às figuras públicas também sempre me pareceram justificáveis. Se elas são públicas e agem, haverá quem reaja… com opiniões favoráveis, negativas, e, também, infelizmente, com desrespeito e insultos.

Mas a relação na rede complica muito quando as tais figuras públicas fazem parte de algum governo e, portanto, têm o poder de interferir efetivamente na vida das pessoas. E complica mais ainda quando é a própria autoridade quem opta pela informalidade das redes sociais para governar. É o que temos assistido nos últimos tempos: governantes, políticos e até juízes expressando-se com absoluta informalidade pelas redes ou irrefletidamente diante de microfones e câmeras. Um pandemônio!

Daí, como não baixar o nível, se, por exemplo, o próprio presidente da República se dá o direito de dar uma banana na TV para quem não segue sua cartilha e ofende a esposa do presidente de outro país pelo Twitter? Como cobrar respeito a um ministro de Estado que manda um “foda-se” rotundo para o Congresso Nacional? Ou aceitar que um deputado peça a volta do AI-5 – para ficar em poucos exemplos? Como evitar reações indignadas e até extremadas de quem está do outro lado? Se essas autoridades não se dão o respeito, como exigir que o cidadão comum as respeite?!

E volto às minhas relações pessoais no Facebook. Felizmente, tenho muitos amigos que não pensam como eu, que me fazem repensar muita coisa, sempre (ou quase sempre) de forma educada. Mas percebo que uma grande parcela deixou de pensar. Tornaram-se negacionistas inveterados e paranóicos. Tudo o que de ruim recai sobre o Brasil – e quem sabe sobre o mundo – é culpa do ex-presidente Lula e do PT, para eles, a sigla do capiroto. Não dá para admitir simplesmente que o atual governo é muito ruim e que a escolha feita em 2018 foi um equívoco?

Eu já conhecia por alto a teoria do caos e do efeito borboleta. A batida da asa de uma borboleta é capaz de provocar um terremoto no outro lado do mundo. Mas há quem diga que o “efeito Lula” é ainda mais implacável. Lula tosse em São Bernardo e desencadeia uma revoada de galinhas chinesas na província de Hubei. As “sinogalináceas” contaminam um avicultor com o coronavírus, que, por sua vez, em apenas uma hora, o transmite para dez vizinhos. No final de duas semanas Lula da Silva provoca a maior pandemia da história. Nada mais óbvio! Se estivesse preso em Curitiba, a humanidade estaria a salvo.

Ironias à parte, não sou cego, não voto no PT desde outubro de 2002, a não ser, eventualmente, no segundo turno. Não engulo o que fizeram em Belo Monte e o que outros governos, anteriores aos do PT, fizeram de ruim ou criminoso. Também não ignoro o lado positivo. Porém, aos olhos desses amigos sou um petista radical. Não me ofendo, absolutamente, mas isso não corresponde à verdade. Seja como for, estou um pouco de saco cheio e já me peguei reconsiderando muita coisa para revidar a aporrinhação.

Mas não tem jeito, anteontem, tive que dar o braço a torcer. Um comentário numa postagem minha no Facebook comprovou a tal teoria do “efeito Lula”. Não é exagero. Compartilhei, pela primeira vez, um artigo do jornalista Merval Pereira, mas sem denunciar a autoria. Sugeri uma leitura às cegas, justamente, para vencer a resistência dos amigos da esquerda. Muitos o aplaudiram e passaram adiante, como não fariam, talvez, se soubessem que o ótimo texto fora assinado por Merval. Até que, de repente, um dos comentaristas dessa postagem escreveu que o texto compartilhado era obra de um comunista, detrator de Jair Bolsonaro! Penico!!! O encadeamento dos fatos é incontestável! Lula tosse, uma galinha na China bate asas, o coronavírus se propaga, Bolsonaro cumprimenta Trump, diz que a pandemia é exagero, ministros brasileiros são infectados, milhares de pessoas morrem, Merval Pereira se filia ao PT e escreve o manifesto comunista que eu postei no meu Facebook. Simples assim.