
Estou perplexo desde que aceitei a amizade de Madame SS no Facebook. Vou ter que tomar cuidado para não denunciá-la neste texto, apesar de merecer ser presa diante das calúnias e barbaridades que compartilha. Portanto, Madame SS pode ser ele. É o codinome de um (a) colega de trabalho, de um (a) parente ou quem sabe de um (a) vizinho (a)… Aceitar sua amizade virtual foi uma gentileza.
Quem não tem um vizinho para quem você abre a porta do elevador, que entra e não tira os olhos do celular? Bom dia? Obrigado? Como vai? Isso não existe! No entanto, que delícia quando encontramos as doces velhinhas, vestidas com rendas antigas, cheirando a água de colônia, que abrem o maior sorriso, dizem bom dia e fazem carinho no cachorro… Madame SS é mais ou menos assim. Para quem assistiu ao hilário “Este mundo é um hospício (Arsenic and old lace)”, de Frank Capra, eu diria que Madame SS é como as tias Martha e Abby, uma fofa!
Quando nos cruzávamos, podia sentir o cheiro da torta de maça feita por ela, colocada na janela antes de servir o chá numa linda xícara de porcelana… Ora, céus, por que Madame SS solicitou minha amizade no Facebook?! Não é que a danada sabe usar computador! Pensei que passasse as manhãs assistindo a programas de receitas e as tardes costurando paninhos para cobrir o liquidificador. Sim, um paninho para cada dia da semana e outros especiais para os dias das suas santas de devoção. Mas, não! Madame SS não tem uma máquina de costura Singer modelo 1944! Ela tem um laptop com processador Intel i9 de décima quinta geração com 88 GB de memória RAM e 1512 GB de SSD.
E ela não posta fotos de bolos confeitados nem de gatinhos fofinhos. No lugar de paisagens da sua terra natal – uma aldeia na fronteira da Áustria com a Itália – ou da oração de Francisco de Assis, sua primeira publicação é: “# fechadacombolsonaro”, seguida de “# cloroquinasalva”. Mais adiante, fotos dos churrascos da família presidencial e comentários do tipo “Brigitte Macron é baranga”, “Lula é cachaceiro”, “AI-5 já! Pronto, disse!”…
E agora? O que fazer quando encontrá-la? Devo abrir a porta do elevador fora do andar para ela cair no poço? Será construtivo flatular ao seu lado? Ou devo fazer cara de paisagem? Mas que paisagem?! Tremo só de imaginá-la vendo minhas postagens. Ela agora sabe que não engulo o capiroto e que gosto de Chico Buarque. E se ela me convidar para um chá em sua casa?!
Martha e Abby, as velhinhas do filme de Capra, envenenavam velhinhos com o maior carinho, acreditando que era um ato de caridade para almas solitárias. Mas Madame SS é bem diferente. É do tipo “torturadora e daí?”. Deve ter um potinho com arsênico para misturar na torta ou no chá dos vizinhos comunistas, dos jovens que fumam maconha atrás do prédio ou “daquela sem vergonha do segundo andar que tem uma namorada”.
Não vai ser fácil encará-la novamente. Sei que ela sai todos os dias para ir à igreja e agora imagino por que leva um pedacinho de torta na bolsa. Deve ser para quando surge um novo mendigo no caminho… ou para oferecer a vizinhos especiais… Só espero que Madame SS, com seu sorriso encantador, não me peça para provar a guloseima na sua frente. “Que tal? Gostou?”