
Em 19/4/2020
Há quem consiga enxergar ganhos em razão de grandes tragédias, como da pandemia da Covid-19. O ex-prefeito Eduardo Paes, no artigo “Depois da peste”, publicado no Globo do último dia 18 de abril, citou o terremoto de 1906 na Califórnia como exemplo de tragédia útil. Após o terremoto, San Francisco teria se tornado “uma cidade economicamente mais bem-sucedida”, apesar dos três mil mortos e dos 225 mil habitantes que tiveram suas casas destruídas em 30 segundos.
Ele afirmou que desastres e doenças dão forma às cidades. Está certo. Guerras também, eu acrescentaria. Algumas cidades até somem do mapa… Ora, não consigo entender como Paes, neste momento, antevê ganhos no meio da luta contra um vírus que já matou mais de duas mil pessoas no Brasil, sendo mil, em apenas uma semana. Que ganhos?!
As cidades são formadas por pessoas. Se o planejamento estatal tivesse funcionado bem na área da saúde, teríamos um sistema mais forte e não faltariam insumos básicos, cuja aquisição foi preterida para construir uma cidade de megaeventos falida, com muito concreto, muito asfalto e pouquíssimo investimento em saúde, saneamento básico e habitação.
Portanto, se existe um ganho, é saber que temos errado muito e precisaremos mudar!
Quero crer que o raciocínio do ex-prefeito não passe por contabilizar a redução física da pobreza como uma vantagem. Também espero que ele não esteja enxergando no sofrimento real das pessoas uma “janela de oportunidades” para investimentos na área imobiliária. Melhor acreditar que o ex-prefeito só é um pouco afoito. Afinal, dentro de alguns meses, o carioca voltará às urnas para escolher quem comandará a cidade “depois da peste”. Que peste? Que pestes?
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