A imagem pode conter: fogo e céu

Em 8/2/2020

No final da década de 1950, foi concebida uma bomba que, segundo seu inventor, Samuel T. Cohen, era uma arma sã e moral, que fazia sentido. Era a bomba de nêutrons, artefato capaz de matar “apenas” pessoas e outros seres vivos, deixando fábricas, pontes, veículos, estradas e prédios intactos.

Em outras palavras, a bomba de nêutrons mata o inimigo, mas poupa seus bens – convenientemente pilháveis pelo vencedor sobrevivente. Portanto, bem diferente das armas nucleares convencionais, como as utilizadas sobre Hiroshima e Nagasaki, que não preservam a infraestrutura da região atacada.

Pelo que li, a produção dessa inacreditável invenção foi contida pelo presidente Carter, dos EUA, mas retomada no início da década de 1980 pelo sucessor Ronald Reagan – época em que a França, sob a presidência do refinado Giscard D’Estaing, fez o teste da sua bomba de nêutrons no Atol de Moruroa, na paradisíaca Polinésia francesa.

Ontem, tais fatos da história explodiram na minha memória, por conta da pandemia da Covid-19 e da discussão da sanidade da economia versus a preservação da vida ou do isolamento social vertical versus o horizontal…

Muita gente, repetindo o atual presidente da República, tem dito que as pessoas precisam voltar ao trabalho para não morrer de fome. Se saírem na rua, o vírus pode pegar. Mas, se ficarem em casa, vão morrer de fome. Precisa realmente ser assim?! No Brasil, não há meios e alimento suficientes para manter todos os trabalhadores não-essenciais em suas casas, sem distinção de classe econômica? A questão central é a distribuição.

Aliás, com ou sem vírus, há muitos anos, o problema é a divisão dos recursos e da renda. E se mais renda não puder ser gerada diante dos inevitáveis reflexos da pandemia na economia, que se divida o possível. Os economistas certamente saberão resolver os problemas muito visíveis desta população mais pobre, há muito, invisível.

Taxação das grandes fortunas, das heranças, progressividade da tabela do imposto de renda e sobre as propriedades seriam soluções? Não sei. Mas defender a exposição irresponsável de todos os trabalhadores ao coronavírus, definitivamente, não! Equivale a privilegiar as coisas em detrimento das pessoas, na mesma lógica da tal bomba sã e moral de Samuel T. Cohen. Sã para quem?

Felizmente, a bomba de nêutrons nunca foi usada. Seu inventor faleceu aos 89 anos de idade, num domingo de 2010, enquanto dormia. Bombas sãs, civilizadas – e mesmo deliciosas – conheço apenas as de chocolate e de baunilha, inventadas por gênios do bem, gênios da gastronomia francesa. E, no futuro, também espero dizer que “felizmente os brasileiros não saíram de casa antes do tempo” e que, com tudo que se terá aprendido, a vida ficou melhor no pós-Covid. Até lá, vive l’éclair au chocolat! Vive la vie!